segunda-feira, 23 de março de 2009

A Grande Ilusão

E aquele cara pulando no tablado e gritando por Jesus! Ele era eloquente, articulado, sabia o que estava fazendo. Dominava totalmente a intensidade da voz. Sabia quando era hora de falar baixo e concentrado para atrair a atenção e quando tinha de gritar e fazer o povo esbravejar Amém. Num momento eu fitei seu rosto moreno e fosco. Aquela expressão de agonia. E com a ajuda da luz que vinha da única lâmpada acesa em frente ao tablado eu vi que lágrimas corriam pelo seu rosto. Eu só não sei se eram de emoção deveras, ou se era de tristeza por ter de ficar todo aquele tempo em pé, andando pra lá e pra cá, tagarelando e encenando. Opa! Falei demais? Não, creio que não.
De a pouco desce o rapaz moreno de cabelos longos, e sobe um gordo. Aee, agora sim, era o pastor. Ele começou seu discurso de uma forma curiosa, com o famoso pensamento cartesiano "Penso, logo existo". Começou a tagarelar sobre o existencialismo. Cara, e o que isso tem a ver com o Evangelho? O que é isso? É evangelização, aula de Filosofia ou mostra de erudição? Ele queria impressionar. Mas ainda acho que falar de filosofia para um bando de ignorantes não era o melhor caminho. Poderia confundir a cabeça dos fiéis e atrapalhar na renda dos trocos depois.
À minha frente, bailava duas moças ao ritmo da bateria. Ora corriam ora saltavam. Até que parou a bateria, o rapaz do tablado falava quase sussurrando, com os olhos contraídos, e as duas moças sentaram no chão com as pernas cruzadas e com a cabeça entre as pernas. Permaneceram assim uns 15 minutos. Eu imaginava a dor daquelas duas, naquela posição tão desconfortável por tanto tempo. Que tortura. E o pior que elas não recebiam nada daquele dinheiro que ia no saquinho. O pastor nem pra dar, sei lá, uns 20% daquele dinheiro pra elas. Que egoísta. Saí lá fora, todos se dirigiam para suas casas, a pé, obviamente, e o pastor em seu belo carro seguia, alegre, contente, missão cumprida.
Aqueles jovens que lá dentro faziam cara de choro, franziam a testa, apertavam os olhos, e repetiam tudo o que o rapaz moreno e loquaz dizia, agora lá fora tratavam de banalidades, dispersos, iludidos, contentes. Só queria saber por quanto tempo ainda aqueles jovens vão viver na ilusão de ter alcançado a verdade.

4 comentários:

  1. oi!
    brigada pelo comentário no meu post ;)
    gostei bastante de seu blog!!

    bjaoooo

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  2. Cada um sabe o que fazer [ou não] na hora em que faz.
    Muito bom seu post. Obrigada pela visita.
    ;D

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  3. "agora lá fora tratavam de banalidades, dispersos, iludidos, contentes." As pessoas tem que viver uma só realidade, as que elas relmente acreditam, a verdade delas.

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